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Política

11/02/2019 00:41

  Os Eixos Centrais da Política Econômica do governo Bolsonaro e a tendência ao colapso da economia    

                        No artigo, A teoria liberal e a tendência ao aprofundamento da crise no Brasil, falamos como o liberalismo econômico tende a elevar a crise brasileira e neste artigo iremos detalhar porque os eixos centrais da política econômica do governo Bolsonaro tendem a levar o país a uma crise ainda maior.

                             É necessário compreendermos que o consumo (Demanda Efetiva) é a engrenagem principal do ciclo econômico, quanto maior o nível de consumo, maior será o crescimento econômico, sendo que a renda do trabalhador é de suma importância, pois é gasta praticamente toda em consumo.

                                Assim, qualquer política econômica que reduza a renda dos trabalhadores fará com que reduza o consumo e consequentemente que os demais componentes da economia (produção, investimento, emprego,etc) sigam um viés de redução, ou seja, estará praticando uma política recessiva em cadeia.

                        As principais propostas do governo Bolsonaro são: a redução dos gastos governamentais, reforma da previdência e desregulamentação da legislação trabalhista.

                        Essas três propostas implicam necessariamente em redução da renda nacional dos trabalhadores e consequentemente do consumo, vejamos:

                        Para cortar gastos o governo pretende reduzir o número de funcionários do governo, revisar os reajustes salariais dos servidores, evitar realizar novas contratações de concursados, rever os reajustes do salário mínimo, realizar a aprovação da reforma da previdência e privatizar tudo que puderem. A meta é reduzir gastos em torno de R$ 148 bilhões ao longo de 4 anos.

                        Os defensores da proposta dizem que é necessário reduzir os gastos governamentais para demonstrar aos investidores que haverá redução da dívida pública, com intuito de gerar confiança na economia brasileira.

                        Ocorre, que há duas questões que não é informado à população, a primeira é que os investidores que  se referem, não investem na economia aqui denominada de real, onde se produz bens e serviços, onde se gera emprego e renda, mas sim na economia que denominamos de virtual, o mercado financeiro, onde se gera apenas juros e é compostos basicamente de rentistas e especuladores que investem em títulos da dívida pública do Estado, dessa forma, a confiança que buscam é na economia virtual e não na economia real.

                        A segunda questão é que redução de R$ 148 bilhões em gastos do Estado significa retirar esse valor da economia real e transferir para economia virtual, ou seja, haverá uma redução na renda nacional, principalmente da parte que vai para os trabalhadores e a proporção dessa redução na economia, será ainda maior que o corte nos gastos governamentais, pois, ocorrerá um efeito em cascata ou reação em cadeia.

                        Não é preciso ser especialista em economia para compreender o efeito cascata que ocorrerá ao se retirar de circulação R$ 148 bilhões de reais da economia, basta, fazer uma simples comparação.

                        Imagine, por exemplo, 100 funcionários comissionados do Estado que recebe renda num valor médio e hipotético de 5 mil reais mensais, o que corresponde a uma renda total mensal de R$ 500.000,00.

                        Essa renda total de R$ 500.000,00 mensais dos funcionários era consumida em compras no mercado real de alimentos, vestuário, imobiliário, etc. entretanto, ao serem dispensados, automaticamente deixarão de consumir R$ 500.000,00 mensais.

                        Consequentemente, os empresários que vendiam para esses funcionários, terão uma redução nas vendas nesse montante e para manter seu empreendimento funcionando, também terão que reduzir gastos e provavelmente irão demitir alguns de seus funcionários, que também consumiam sua renda em outros mercados reais que precisarão demitir outros funcionários e assim, sucessivamente, cria-se uma reação em cadeia, que ao final tende levar milhões de trabalhadores ao desemprego e inúmeras empresas a falência.

                        Com a redução da renda nacional dos trabalhadores e consequentemente do consumo, não é difícil chegar a conclusão que os empresários não irão investir na economia real, visto que a expectativa de retorno do capital será reduzida, sendo que, o mais provável, nesse cenário, é que irão investir e irão quebrar, visto que não terão demanda para os produtos ou serviços ofertados.

                        Imaginem agora a retirada de R$ 148 bilhões de reais na economia real, isso significa que a economia real possui grandes propensões em entrar em colapso e nessa perspectiva, a única opção para os poucos empresários que sobreviverem será investir seu capital no mercado financeiro, principalmente no títulos da dívida pública, que certamente estarão pagando elevadas taxas de juros, o que piora ainda mais a situação da economia real.

                        Nessa perspectiva, qualquer cidadão brasileiro que é favorável à política econômica de cortes de gastos do Estado Brasileiro, proposto pelo governo Bolsonaro, está fadado a ser um futuro desempregado, se trabalhador, ou futuro falido, se empresário.

                        De outro norte, a desregulamentação da legislação trabalhista é uma tentativa ilusória de manter o retorno do empresariado que irá perder com a redução de suas vendas depois da redução[ii] da renda nacional em R$ 148 bilhões.

                        Ilusória, porque num primeiro momento tenderão a contratar trabalhadores sem os direitos trabalhistas, que significa com renda e direito menor, entretanto, para contratar tais trabalhadores terão que demitir os funcionários que possuem os direitos trabalhistas, ou seja, haverá simplesmente a substituição de funcionários com um nível maior de renda e direitos por funcionários com salários menores, sem qualquer direito. Mas, da mesma forma que no corte de gastos do Estado, haverá também a mesma reação em cadeia acima explicado, visto que, a redução de salários/renda, necessariamente corresponderá na redução do consumo que influenciará na próxima produção e nos investimentos do setor privado.

                        Com as privatizações a análise é a mesma, pois a empresa que adquire as empresas públicas privatizadas irá demitir uma grande parte dos funcionários e não contratará novos, mas pior que isso, é o fim das empresas públicas que são criadas para atender o interesse coletivo da população brasileira (norma constitucional), tendo em vista, que possuem o intuito de balizar setores monopolizados ou oligopolizados do mercado, como é o caso dos bancos públicos, onde uma de suas funções é oferecer empréstimos e financiamentos com menores taxas, fazendo com que os demais bancos privados sigam esse viés de taxas reduzidas, ou mesmo estar em locais onde os bancos privados não possuem interesse em ter agencias, por não serem rentáveis.

                        Nesses termos, as privatizações colaboram com a redução da renda nacional dos trabalhadores e, ainda, entrega setores oligopolizados ou monopolizados para iniciativa privada, prejudicando toda a população brasileira.  

                        Concluindo, qualquer dos eixos da política econômica do governo Bolsonaro, que se intitula liberal, tende a piorar a situação dos trabalhadores e elevar a crise na economia real, levando inúmeras empresas a falência e se mantida, levar o país a um verdadeiro colapso.

 

 

 Entenda como funciona o Ciclo Econômico [i].

            Resumidamente temos que o principal propulsor da economia, a base que faz com que as demais engrenagens do sistema funcionem é a DEMANDA EFETIVA ou simplificando é o CONSUMO. Ele é responsável pelo NIVEL DE PRODUÇÃO E AS EXPECTATIVAS DE INVESTIMENTO DOS EMPRESÁRIOS do próximo ciclo.

                        Um consumo em níveis altos significará necessariamente maior produção e a elevação dos investimentos pelo setor privado, porém, o contrário também é verdadeiro, se o consumo é reduzido, a produção e os investimentos seguem no mesmo patamar.

                        Assim, o consumo do ciclo anterior vai definir os investimentos e a produção do próximo ciclo, e consequentemente o nível de emprego e renda.

                        Podemos resumir o ciclo econômico da seguinte forma:

                        Consumo realizado (Demanda efetiva) influenciará na expectativa de investimento e na produção. A produção gerará emprego e renda nacional.

                        Da renda nacional uma parte irá para os lucros e outro para salários, sendo que, praticamente 100% da renda que vai para os salários será consumida.

                        O percentual da renda gasta em consumo é quem será responsável pelo ciclo econômico posterior, quanto maior melhor.

                        Assim, a renda que vai para os trabalhadores (salários) é importantíssima nesse ciclo, pois, irá quase 100% para o consumo.  

 

[i] Ciclo econômico da teoria Keynesiana que difere da teoria liberal em relação ao propulsor da economia, pois na Liberal é a Oferta (produção) e na Keynesiana a Demanda efetiva (consumo).

[ii] Colocamos a palavra redução para melhor compreensão, entretanto, o melhor termo é transferência de renda da economia real para a economia virtual (mercado financeiro), visto que, tais valores irão para pagamento dos juros e amortização da dívida pública do Brasil.


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