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Política 05/08/2018 13:02 Por Alex Rodrigues

As decisões da Executiva do PT nas eleições de 2018 à luz do reformismo da teoria marxista

A luta para o estabelecimento de uma sociedade igualitária, não é apenas uma luta contra o inimigo exterior, a burguesia, mas simultaneamente uma luta do proletariado contra si mesmo, contra os efeitos devastadores e degradantes do sistema capitalista na formação de sua consciência de classe

                               Na última semana aconteceu um embate entre o quadro dirigente do Partido dos Trabalhadores (PT) e seus militantes de base, onde a Executiva Nacional tomou ou deixou de tomar decisões que contrariam sua própria resolução contra o golpe parlamentar, midiático e jurídico que vem ocorrendo no Brasil.

                               Em Pernambuco, a pré-candidata ao governo, Marília Arraes, mesmo após o Encontro Estadual do Partido, indica-la com ampla maioria como candidata ao governo do Estado, foi literalmente patrolada pela Executiva Nacional, onde 80 dos votantes decidiram que ela não seria candidata e que apoiariam o candidato do PSB.

                               Não bastasse a patrola em Marília Arraes em Pernambuco, ainda, houve o apoio a Eunício de Oliveira do MDB no Ceará, partido do atual presidente golpista Temer, que tramou o impeachment de Dilma, excluindo a candidata do partido Luizianne Lins ao Senado.

                               Em Mato Grosso, não precisou nem mesmo a Executiva Nacional contrariar a militância de base, pois, conforme artigo de Antônio Pacheco (acesse aqui), o deputado Estadual Barranco e Federal Saguas Moraes, definiram, através do “voto cabresto”, o apoio a um dos algozes do PT no golpe, Welington Fagundes do PR.

                               Todas as decisões que contrariam a maioria dos militantes do partido foram tomadas sob o argumento de tática eleitoral do partido com palanque para a candidatura de Lula presidente no intuito de “Reconstruir o Brasil”.

                               Nos termos da tática eleitoral, “o PT entende que a unidade do campo popular é necessária para superarmos a profunda crise do país, reverter a agenda do golpe e retomar o projeto de desenvolvimento com inclusão, onde o povo e os trabalhadores voltem a ser o centro das ações de governo.”

                               Ocorre que a militância de base do partido, principalmente, nos Estados acima citados, discordam, com justa razão, da tática eleitoral dos dirigentes, pois foge a coerência do discurso contra o golpe que cassou o mandato de Dilma Rousseff e fez de Lula o primeiro preso político no Brasil pós-ditadura militar, conforme destacou Pacheco em seu artigo.

                               Diante desse quadro, posto no maior partido de esquerda do país, que segue as linhas da teoria de Marx, é preciso compreender, o porquê o PT segue essa linha incoerente, que ao nosso ver, auxilia a sua própria destruição.

                               Para compreendermos, utilizamos nossa pesquisa realizada em dissertação de mestrado (2014), onde constatamos que nos anos entre 1970 a 1980, os movimentos sociais e partidos políticos de esquerda que se intitulam marxista, certamente por inocência, tomaram um caminho perigoso e que seus frutos são sentidos atualmente, através de um quadro de inconsciência de classe generalizada.

                        A análise efetuada em nosso estudo foi sobre os postulados de Karl Kautsky, onde percebemos que foi seguido pelos movimentos sociais e partidos políticos no Brasil, que se constituíram nesse período de 1970/80.

                        Em resumo, nos termos do dicionário político[i] marxista, Kautsky, foi um dos principais teóricos da social democracia alemã e a princípio se tornou depois da morte de Engels, o mais fiel interprete da doutrina marxista, entretanto, em que pese seus escritos terem atingido notoriedade no movimento operário, não demorou muito para os mais diversos autores ligados a Marx, dentre os quais Lenin, perceberam que se tratava de um revisionista, um oportunista, desfigurador da teoria socialista.

                        A teoria de Kautsky se pauta nas teorias não revolucionárias, onde os resultados positivos do movimento operário acaba por ser sua via de liquidação. A IDEOLOGIA não revolucionária, a qual é posteriormente substituída pelo discurso do social-reformismo, do oportunismo, do social-patriotismo, caracteriza uma descarada traição ao modelo socialista.

                        De acordo com Mattick[ii],  a maior relevância de Kaustsky é o fato de sua teoria ser aprovada pela maioria dos operários organizados, apesar de serem as principais vítimas, sendo que sua difusão se dá pelo fato das massas e seus dirigentes serem tão pouco revolucionários, que ambos acabam por buscar a participação no progresso capitalista, passando a se organizar com vista a obterem uma parte maior do produto social do sistema e também para melhor se fazerem ouvir no plano político, aprendendo a pensar em termos de democracia burguesa e a colocar-se na posição de consumidores, exigindo o acesso aos benefícios da cultura e da civilização capitalista.

                        Ora, a teoria de Marx, nunca deixou margem para se pensar que a transformação social ocorreria através da participação no progresso capitalista, buscando os benefícios de sua cultura e civilização ou da organização em termos da democracia burguesa.

                        Pois bem, ao analisarmos o discurso do PT ou da maioria dos partidos e movimentos sociais de esquerda no país, veremos que é pautado em avançar nos direitos, maior participação nos lucros capitalistas ou serem ouvidos no plano político, sem qualquer rompimento da ordem instituída.

                        Numa primeira análise pode nos parecer justas tais reivindicações, e por óbvio são, entretanto, quando se esquece ou tenta modificar uma teoria cientifica e REVOLUCIONÁRIA como é a de Marx, passa-se a não mais buscar a transformação social, a mudança de um sistema opressor ou a busca pela emancipação humana, mas sim, tentar melhorar o sistema capitalista de produção.  E essa busca, considerando a concepção do próprio sistema, pode se conquistar alguns resultados positivos, entretanto, leva ao enfraquecimento da classe trabalhadora, tendo em vista, que se torna uma classe sem capacidade de enfretamento. E, pior que isso, é que, quando se luta para participar dos benefícios do sistema capitalista, simplesmente, está se lutando com as regras do sistema e não é difícil concluir que essa luta só faz fortalecer, ainda mais, a ideologia dominante e a consequência lógica é que todas conquistas da classe trabalhadora no sistema capitalista, seguindo a perspectiva de Kaustky, é em momento posterior retirado ou utilizado contra a própria classe.

                        Esse fato é escancarado após o golpe parlamentar, midiático e jurídico ocorrido no Brasil em 2016, através do impeachment da Dilma, com a prisão política de Lula e, principalmente, com as reformas aprovadas no Congresso Nacional em menos de dois anos, em especial a trabalhista, do teto de gasto e a da Previdência que ainda está por vir.

                        É necessário destacar que a análise efetuada até aqui, não é no sentido de dizer que o Partido dos Trabalhadores traiu a classe operária, como é comum pela própria esquerda, mas é preciso entender que o PT na perspectiva do que dissemos, onde as bases marxistas foram reformadas pelas teorias de Kautsky, atingiu seu objetivo, que é dar maior participação da classe trabalhadora no progresso capitalista.

                        Se a crítica dos partidos e movimento de esquerda se limitar a dizer que o PT trai os trabalhadores, certamente, estarão fadados ao mesmo erro se futuramente atingirem o poder, pois, não se trata de traição, propriamente dita, tendo em vista, que os desejos da classe, na perspectiva de kautsky, é justamente a melhoria e a participação no progresso do sistema capitalista e isso, sem dúvida, ocorreu no governo do PT, em que pese, atualmente essa participação estar sendo corroída, mas como já dissemos, tudo que se conquista no sistema, em momento posterior é retirado ou utilizado contra a própria classe.

                        Ocorre que além da participação no progresso capitalista, passando a se organizar  com vista a obter uma parte maior do produto social do sistema e também para melhor se fazer ouvir no plano político, os dirigentes do PT, também aprenderam a pensar nos termos da democracia burguesa, sendo cristalinamente demonstrada na Tática Eleitoral adotada nessas eleições de 2018 pela Executiva Nacional, passando por cima de sua militância de base, sendo totalmente incoerentes com suas próprias resoluções e, ainda, acreditando que o judiciário brasileiro irá modificar a prisão política sem provas de Lula e restaurar o Estado democrático de direito no país.

                        Importante destacar que a militância do partido que se coloca contrária a tal tática, demonstra o seu elevado nível de consciência de classe e que, pretendem seguir, verdadeiramente, a teoria marxista, sem reformismos e, dessa forma, estão no caminho correto.

                        Já os dirigentes da Executiva Nacional do PT que votaram a favor da TÁTICA ELEITORAL ADOTADA, resta relembrá-los uma frase de Lukacs:

                        Toda tática sem princípios rebaixa a luta de classes até fazê-la uma mera “ideologia", força o proletariado a um método de luta burguesa (ou pequeno-burguesa), priva-o de suas melhores forças, destinando â sua consciência de classe o papel de uma consciência burguesa, mero papel de acompanhamento ou de freio dele próprio.

                        A militância que se coloca contra as decisões da Executiva do PT, é necessário compreender que a dialética de Marx é um processo histórico e acontece a partir da vida real e material, gerando a contradição que leva a ruptura do sistema. Nesse sentido, penso que, a dialética de Marx ocorrerá também no Partido dos Trabalhadores, posto que a contradição já está ocorrendo entre os dirigentes (minoria) e a militância de base (maioria) que se apresenta consciente de seu papel transformador, sendo que a tendência é ocuparem/num futuro próximo os espaços decisórios do partido.

                        Nessa/ perspectiva, finalizo com uma frase de Marx e outra de Lukacs que refletem o atual momento e deve ser sempre levada a contento pela militância de base do PT.

                        A organização do proletariado em classe e, portanto, em partido político, é incessantemente destruída pela concorrência que fazem entre si os próprios operários. Mas renasce sempre, e cada vez mais forte, mais firme, mais poderosa. (Marx, Manifesto comunista)

                       

            A luta para o estabelecimento de uma sociedade igualitária, da qual a ditadura do proletariado é uma simples fase, não é apenas uma luta contra o inimigo exterior, a burguesia, mas simultaneamente uma luta do proletariado contra si mesmo, contra os efeitos devastadores e degradantes do sistema capitalista na formação de sua consciência de classe. Lukacs (1960)

                       

Alex Rodrigues - Idealizador do site Assimetria, diretor do Sindicato dos Bancários de Mato Grosso, mestre em Política Social e graduado em Economia e Direito.           

 

[i] ___________, Karl Kautsky. Dicionário político. Marxists Internet Archive. Disponível em https://www.marxists.org/portugues/dicionario/verbetes/k/kautsky.htm com acesso em 29/01/2014.

[ii]MATTICK, Paul. Karl Kautsky: De Marx a Hitler. 1939. Disponível em http://www.marxists.org/portugues/mattick/1939/mes/kautsky.htm com acesso em 29/01/2014.

 

 


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